título

O engraxador universitário

nova gazeta

Bento Laurindo nasceu no Balombo, em Benguela. A guerra e as dificuldades da ‘vida do campo’ obrigaram-no a vir para Luanda com apenas 13 anos.

Sofreu e viveu na rua, mas não mediu esforços para continuar os estudos. Hoje, aos 27 anos, vende jornais e engraxa sapatos durante o dia. À noite, estuda História no ISCED de Luanda. Bento Laurindo nasceu no Balombo, em Benguela. A guerra e as dificuldades da 'vida do campo' obrigaram-no a vir para Luanda com apenas 13 anos. Sofreu e viveu na rua, mas não mediu esforços para continuar os estudos. Hoje, aos 27 anos, vende jornais e engraxa sapatos durante o dia. À noite, estuda História no ISCED de Luanda.


Vive sozinho. Levanta-se todos os dias às cinco da manhã para evitar o 'engarrafamento' e chegar às seis horas à Rua Salvador Allende, em Luanda, onde vende jornais e engraxa sapatos. Facturava três mil kwanzas por dia, com a entrada para a universidade, não consegue passar dos dois mil. A "grande dificuldade", por agora, prende-se com o táxi. "É muito difícil aguentar a semana toda sem faltar. Penso sempre em desistir", explica, acrescentado que os colegas e professores incentivam-no a continuar.



Apesar de estar na universidade, nem tudo tem sido um 'mar de rosas' para Bento Laurindo. Vive numa casa de renda no Morro dos Veados e paga semestralmente 36 mil kwanzas. Para a universidade, só em táxi, gasta todos os dias mil kwanzas, isto para não falar dos 15 mil da propina. "Pagueio Fevereiro com parte do dinheiro reservado para a renda. Neste momento, estou a 'dar no duro' porque a senhoria já me está a cobrar".



Inscreveu-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), por sinal, 'vizinho' da escola onde fez o ensino médio e do local onde engraxa sapatos e vende jornais.
Algum tempo depois, ficou a saber que os exames de admissão seriam feitos no Kilamba, local que viria a ser as instalações actuais. "Tive vontade de nem sequer fazer o exame. Tinha escolhido o ISCED porque ficava perto do meu posto de trabalho". Foi admitido com uma média de 7,5 valores. "Estava muito confiante. Seria uma vergonha e uma aberração se chumbasse. Sempre fui bom aluno a História", garante.

 


Fuga de Benguela


Os amigos tratam-no por 'Marley', mas o seu nome de registo é Bento Laurindo. O sonho de infância era ser padre. "Cresci na catequese, onde também estudei até à 6.ª classe. Sempre admirei os padres. Davam-me muitos conselhos, ajudavam as pessoas e, mesmo durante a guerra, encorajavam-nos e nunca pararam com as missas".



Natural do Balombo, Benguela, Bento Laurindo é o quarto de seis filhos. Abandonou a casa dos pais em 1999 com apenas 13 anos, para tentar ganhar a vida em Luanda.



"Meu pai obrigava-me a ir à lavra, enquanto as minhas irmãs vendiam na praça". Quando Bento reclamasse, o pai era peremptório: "Tu és homem, não te podes comparar com elas". Mas nunca chegou a sentir os benefícios do trabalho no campo. "Tinha um único calção que usava em casa, na escola e na igreja". Já flagrou o pai a "agredir a mãe com uma tesoura".



Aproveitou a 'boleia' de uma 'caravana' das Forças Armadas de Angola (FAA) que saía do Balombo com destino ao Lobito, mas a meio do percurso foram atacados pela UNITA. Teve ferimentos graves no pé esquerdo. "Foi um grande susto. Eram tiros intensos a vir de todos os cantos. Saltei do caminhão, mas não conseguia andar. Estava a sangrar muito". Alguns militares ajudaram-no a apanhar uma ambulância. Ficou seis meses num hospital do Lobito que acredita que se chamava 'Compão'.



Antes mesmo de lhe ser dada a alta, um tio foi buscá-lo. Ficou em casa dele até meados de 2000. Precisava de dinheiro para sair de Benguela. Um primo aconselhou-o a falar com o responsável pelo pagamento do salário do pai, que sem saber dos planos de Bento, entregou-lhe 1.500 kwanzas:
o valor serviu para fugir de Benguela.



De barco, chegou até Kikombo, no Kwanza-Sul, onde permaneceu duas semanas. Dormia na praia junto com um 'fuzileiro' (já não se lembra do nome) que, comovido com a sua história, lhe pagou a passagem para Luanda. "Era muito novo e, sem aquele senhor, não me deixariam sequer subir no camião".



Luanda dos sonhos

 

Chegou a Luanda em finais de 2000. O 'Morro dos bois', no extinto mercado do 'Roque Santeiro', foi a primeira morada. "O fuzileiro tinha muitos familiares que até nos arranjaram uma 'casota' de chapa".Na capital, Bento Laurindo continuou a vender sacos. Passou a viver com um primo na Petrangol. Mas outro primo não terá gostado da estadia de Bento. "Chegaram a ponto de brigar por minha causa", lembra-se.



Se a casa do 'fuzileiro' "não era uma boa opção", o regresso a Benguela era uma 'carta fora do baralho'. Saiu da casa do primo e passou a dormir no Roque Santeiro. "Era duro, mas eu sabia que se tratava apenas de uma fase. Em 2001, juntamente com outros benguelenses, decidiu mudar-se para o 'Catinton'. Aliou a venda de sacos à actividade de engraxador. Passou a facturar 300 a 500 kwanzas por dia. Os lucros iam aumentando.



"Alguns conterrâneos até voltaram para Benguela. Na altura, estava na moda comprar o aparelho 'Simba' para se exibir no mato", recorda-se, às gargalhadas, ressaltando que aproveitou para enviar algumas roupas e fotografias para a mãe, no Balombo.

 

Por Onélio Santiago

Fotos Santos Samuesseca