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Seca no Cunene força alunos a abandonar aulas

Alunos do ensino primário e secundário de algumas localidades do Cunene, sobretudo rapazes, incluindo crianças, estão a abandonar as aulas para se dedicar à pastorícia, em consequência da seca que assola a província desde o mês de Outubro do ano passado.

Segundo apurou a Angop, essa realidade está-se a viver, essencialmente, na povoação do Ombwa, comuna do Oncocua, no município do Curoca, no Evale (Cuanhama) e em Ontchinjao (Cahama), preocupando as autoridades locais, tendo em vista o aumento de reprovações.

 

O administrador comunal interino do Ombwa, Adriano Samba, explicou que devido à estiagem muitas crianças estão a ser obrigadas a abandonar os estudos para seguir os pais na transumância (procura de capim) e de alimentos para o sustento da família.

 

“(….) As crianças abdicam dos estudos porque, em tempo de seca, os pais, criadores, tornam-se nómadas, uma vez que têm de percorrer longas distâncias (por vezes mais de 100 quilómetros) até encontrarem comida e água para o gado”, esclareceu o também secretário do soba.

 

Gelso Katchihaluoko, professor na localidade desde 2018, disse ser complicado leccionar no Ombwa pelo facto de os alunos faltarem muito, por viverem longe e, por outro lado, por serem obrigados pelos pais a dedicarem-se ao pasto, a principal fonte de sustento da localidade.

 

“Normalmente, as salas de aula da iniciação a sexta classe são compostas por 15 alunos, mas até ao final do ano podem acabar com 12 ou 8 alunos, porque estes acompanham os pais à transumância”, lamentou.

 

Até há bem pouco tempo, referiu o professor transferido de Ondjiva, a administração ajudava com merendas escolares, mas nos últimos meses deixou de o fazer, o que motivou também com que muitas crianças abandonem as escolas e outras a assistirem as aulas apenas até ao intervalo. 

 

Por sua vez, a administradora municipal da Cahama, Maria de Lourdes de Oliveira, minimizou a situação, mesmo em evolução, por entender que com fome dificilmente as pessoas assimilam a matéria e que a maioria das comunidades rurais do Cunene não vive sem o pasto e a agricultura.

 

“A nível do Cahama temos o registo de 82 crianças que abandonaram as escolas para acompanharem os pais nas áreas de transumância. Mas estas não são exactamente do nosso município, são pessoas que vieram da Namíbia, do Virei (província do Namibe) e dos Gambos (Huila)”, explicou.

 

De acordo com a responsável, os dados referem-se a este ano e algumas destas crianças, inclusive do sexo feminino, também são provenientes do Curoca e de Ombanja, localidades que recentemente receberam feno para o gado em transumância e que em breve beneficiarão de novos furos de água.

 

Já o administrador comunal do Evale, município de Ondjiva, Porfílio Vatileni, salientou ser difícil controlar a situação, por tratar-se de comunidades ou povoações que vivem da agropecuária há centenas de anos, e que não admitem nenhuma outra actividade sobrepor-se ao pasto.

 

“Estamos com muitas crianças fora do sistema de ensino devido à seca, visto que estas são obrigadas a procurar alternativas para a sobrevivência, sendo a transumância a primeira opção, porque a agricultura fica nula. Mas as cheias também retiram as pessoas das escolas”, resumiu.

 

É uma prática frequente em várias povoações e comunidades dos seis municípios do Cunene, nomeadamente Cuanhama, Cahama, Curoca, Namacundi, Ombanja e Cuvelai.

 

A nível da província estão matriculados, no presente ano lectivo, 214 mil 311 alunos, sendo 168 mil 510 no ensino primário, 30 mil 587 no primeiro ciclo e 15 mil 214 do segundo ciclo. O sistema é assegurado por seis mil e 298 professores, distribuídos em 868 escolas.

 

Dessas instituições de ensino, 792 são do ensino primário, 56 do primeiro ciclo e vinte do segundo ciclo, sendo que por insuficiência de salas, 72 mil e 327 crianças da iniciação à 6ª classe (ensino primário) frequentam aulas ao ar livre, como consequência do deficit de cinco mil e 598 salas aulas.

 

 

SAPO/Angop

23/04/2019